quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

ORGULHO JAPA

Recentemente, foi o Dia da Consciência Negra, e muitas cidades país afora decretaram feriado. Alguns meses antes, houve um tal de dia do orgulho gay (ou da diversidade), e em muitas cidades houve passeatas em que os representantes dessa minoria faziam questão de mostrar-se ao público. E, de orgulho em orgulho, muitas minorias têm conseguido aumentar sua participação na vida política nacional, a ponto de quase não existir mais a maioria.

Falta, porém, uma minoria a ser homenageada: os orientais, ou japas. O termo "japa" é utilizado (às vezes de forma pejorativa) para designar todo migrante vindo do Leste da Ásia. Isso se deve aos japoneses que aqui desembarcaram a partir de 1909, sendo que hoje seus descendentes são a maioria entre os orientais no Brasil. Esse fluxo migratório foi complementado recentemente por chineses e coreanos. De plantações de café a pastelarias e lojas populares, sua ânsia por trabalho em muito contribuiu para o crescimento da economia brasileira.

Muito embora sua relevância para o desenvolvimento econômico do país, a comunidade oriental tem pouca participação política e cultural. Afinal, quantos "japas" temos ou tivemos nos tribunais superiores? No Congresso Nacional? Na Academia Brasileira de Letras? Como Ministros de Estado? Como âncoras de telejornais? Sendo assim, será que eles também não seriam uma minoria discriminada, relegada a alguns cursos de engenharia?

Por isso, proponho às autoridades que empenhem esforços em aprovar, o mais rápido possível, o Dia do Orgulho Japa. É uma questão de justiça, para conceder a essa minoria o reconhecimento que merece. Seria, também, um outro motivo para organizar uma passeata e fechar a Avenida Beira Mar... em pleno domingo! E todos ficaríamos um pouco mais felizes.

Mas felizes, mesmo, seremos no dia em que todos nós comemorarmos o dia do orgulho azul, sem essa de pretos, brancos, amarelos, pardos... Aí sim veremos o quão idiotas fomos em dividir as pessoas por cores, como lápis ou folhas de cartolina.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

HOMONÍMIA

Comunico a todos meus familiares, amigos e conhecidos em geral que morri. Sim, é isso mesmo: agora sou um falecido, um “de cujus”. Um presunto, um “que Deus o tenha”, ou qualquer outro eufemismo que o povo costuma utilizar nessas horas, para amenizar o sofrimento.

Ao menos foi isso que os jornais noticiaram naquele dia. Um acidente horrível, envolvendo dois automóveis. Tragédia mesmo, de tais proporções que não me atrevo a descrevê-la, para não chocar os leitores mais sensíveis. Curiosamente, um sujeito com um nome parecido – sequer igual – com o meu estava envolvido. Não morrera, mas, pelo que vi, encontrava-se ferido com certa gravidade.

A notícia do meu nome – ou melhor, de um nome apenas parecido com o meu – foi o suficiente para que as pessoas relacionassem o semi-homônimo a um dos mortos no acidente. Para piorar, havia a agravante de que essa pessoa estudava na mesma faculdade onde eu me formara havia pouco tempo. Por extensão, correu a notícia de EU fui um desses mortos. A confusão estava instalada.

É, amigos, mataram-me! Pouco após o meio-dia, quando o telejornal recém noticiara a tragédia, começaram os telefonemas. O primeiro deles foi de um amigo que, ainda sonolento, acompanhara a notícia, sem prestar muita atenção. Quando ouviu meu nome, resolveu contactar-me, para desencargo de consciência. Ao perceber que eu estava mais vivo do que ele, pôs-se a fazer seus afazeres rotineiros, no caso, um cochilo vespertino, pois ninguém é de ferro!

Em seguida, o telefone aqui de casa transformou-se em um misto de muro das lamentações com atendimento de operadora de telefonia fixa. Havia, basicamente, três tipos de contatos: o desconfiado, baseado na frase “notícia ruim corre rápido, então não pode ser verdade”; o desinformado, que só queria saber mais sobre o que ocorrera; e o precipitado, esse sim, conformara-se com a minha morte prematura, tendo ligado apenas para expressar suas condolências.

Fato semelhante a esse ocorrera havia alguns anos. Para variar, outro acidente horrível, mas, nesse caso, meu homônimo – aí sim, nome e idade iguais aos meus – não fôra a vítima, mas sim o malfeitor, o meliante, o delinqüente. Pelo que lembro, atropelara dois inocentes pedestres em uma rodovia movimentada. E, por essa razão, encontrava-se detido na delegacia.

Pensem comigo: já imaginaram se um fulano desses foge da cadeia? E já imaginaram se, nesse tempo, resolvo viajar e, na estrada, paro em uma barreira policial? Ah, meus amigos, até explicar que urubu não é louro, provavelmente terei ouvido um “cala a boca, vagabundo”, isso três segundos antes de ser conduzido coercitivamente para a traseira de um camburão.

Deve ser por isso que, em plena madrugada, meu tio telefonou esbaforido, a fim de saber se eu havia passado por aquelas bandas. Pobre coitado, que desgosto sofreria aquele militar aposentado, caso um sobrinho seu se envolvesse em tantos ilícitos do Código Penal, como aquele fulano.

Preocupado com o acontecido, realizei, nessa época, uma rápida pesquisa. Então percebi que meu nome era mais comum do que imaginara, pois em cinco minutos achei, Brasil afora, outras 14 pessoas com nomes idênticos. Nada mais normal: o que mais eu poderia imaginar, considerando os sobrenomes portugueses – e dos mais comuns – que herdei de meus pais?

De certa forma, até é bom saber que, ao menos nessas horas, tantas pessoas preocuparam-se comigo. Mas, pelo visto, serei obrigado a zelar para que as pessoas homonímicas que descobri comportem-se e não façam mais nada de errado nesta vida. Afinal, o nome que está em jogo também é o meu.

(Crônica publicada originalmente em livro resultante do III Concurso Literário da Semana do Servidor de SC. Até comecei a me levar a sério nesse negócio.)

sábado, 17 de novembro de 2007

AFASTAMENTO

Avisando aos 3 leitores deste blog que logo voltaremos à "programação normal". Estive afastado do computador, fazendo laboratório para um teste em Hollywood. Eu iria interpretar o Stevie Wonder num filme, por isso fiquei 20 dias de olhos fechados, portando óculos escuros e cantando "I just called to say I love you". Infelizmente, parece que um tal de Jamie Foxx ganhou o meu lugar, por causa das cotas e da experiência anterior como Ray Charles.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

PARADOXO

Não é estranho que Fidel Castro critique a produção de álcool combustível, alegando que seria prejudicada a produção de alimentos? Afinal, a maior parte das terras agricultáveis em Cuba são destinadas a plantações de fumo e de cana-de-açúcar (para a produção de açúcar mesmo, e não álcool).

Será que a dieta dos cubanos consiste em ingerir açúcar e mascar tabaco?

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

OH, QUE SAUDADES DA MINHA DITADURA QUERIDA...

Já se passaram quase 20 anos desde a transição para a democracia política, e mais do que isso desde o fim da censura à livre manifestação do pensamento. Todavia, parece que alguns ainda sentem saudade daqueles tempos.

Os oficiais e praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro, por exemplo, manifestaram apoio integral à ação judicial impetrada por oficiais do Bope contra a exibição do filme nos cinemas brasileiros. Ou seja, querem evitar que a população veja qualquer resquício de realidade que o filme por ventura possa trazer. Já dizia um ministro: "o que é ruim a gente esconde".

Aliás, a própria Corregedoria da PM do RJ não gostou muito desse filme. Tanto o diretor deste, José Padilha, e o ex-capitão da Polícia Militar, Rodrigo Pimentel - um dos autores do livro “Elite da Tropa”, que inspirou esse filme - foram intimados a prestar depoimento na Corregedoria da PM. Caso se recusem a comparecer na data determinada, eles podem ser conduzidos por força policial.

Para piorar, o filme ainda desagradou muitos setores da sociologia barata brasileira. Estes, se pudessem, também o proibiram. Afinal, onde já se viu discordar da ladainha de que o bandido é um fruto de um "sistema perverso" (o capitalismo), que se vê obrigado a seguir uma vida de crimes? E não repetir que a polícia é um mecanismo repressivo, destinado a garantir o controle social de um Estado ilegítimo, que só quer proteger a "elite" (não seria oligarquia?)? Claro que existe muita pesquisa social séria no Brasil. O problema é que a sociologia que domina o ensino médio, os cursos de graduação e a mídia é essa acima.

Mas não farei uma análise sociológica do filme, até porque já existem muitos enganadores fazendo isso neste momento. Sem falar que é muito sacal fazer análise sociológica de peças de entretenimento. É politicamente correto demais.

O problema é que, em nome do politicamente correto, querem proibir o filme. Deve ser porque a "intelectualidade" não gostou do que viu. E também porque alguns setores do Estado não gostam que a população saiba de seus defeitos. Enfim, o coitado do diretor tomou pau de todos os lados.

Sorte nossa que até agora não apareceu nenhum juiz maluco admitindo a retirada do filme das salas de cinema. A repercussão negativa ao "Caso Cicarelli" deve ter escondido a saudade dos tempos em que bastavam alguns minutos para censurar qualquer opinião.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

...

Orra, o Hellacopters acabou...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A FOTOSSÍNTESE

O dia amanhecera ensolarado naquele final de outubro. Da janela da sala de aula, no andar térreo, era possível avistar o último resquício de mata nativa nas redondezas desse novo prédio do Centro de Ciências Jurídicas. Um matagal que, não obstante a sua insignificância em área, era um foco de resistência contra o “progresso”, sendo saudosamente conhecido pelos acadêmicos, em razão da sua denominação, dada em homenagem a um dos docentes da casa.

A primeira aula do dia já rumava para o seu término, estando o professor ministrando as suas considerações finais, enquanto alguns dos colegas esperavam para expor suas dúvidas em relação à matéria lecionada. Aguardávamos, ansiosos, pelo intervalo, um breve momento de descanso que, embora exíguo, nos era extremamente salutar. E, naquele dia, o seria mais ainda, pois o sol, desaparecido em razão dos últimos dias chuvosos, aparecera radiante, trazendo consigo aquele clima típico do verão que se aproximava.

Como adorávamos o verão! Estação do calor, do sol, das tempestades refrescantes do final de tarde. Claro, o clima úmido e quente transformava as classes em verdadeiras fornalhas, tamanho o grau de insalubridade. Porém, ainda assim trazia os seus brindezinhos: as pessoas acordavam mais ativas, alegres e, algumas vezes, sensuais. Dias como aqueles eram perfeitos para rumarmos em direção ao gramado do prédio vizinho, permeado de bancos e arbustos, onde nos poderíamos estabelecer no ponto com a melhor visão de todo o local, para então darmos início ao que poderia ser cunhado “nosso ritual”.

Sim, esse ritual que cumpríamos religiosamente desde os primeiros dias de faculdade, sempre que o clima era propício para tanto. Começou quando ainda éramos calouros, anônimos uns aos outros, mas que tinham em comum o vigor decorrente dos hormônios que guiavam qualquer ser humano na flor da idade.

Chamávamos-lo de “fotossíntese”, nome deveras estranho para os meios jurídicos, porém compreensível para uma leva de recém-vestibulandos, ainda bitolados pelos conteúdos do ensino médio. E o era assim denominado porque, basicamente, ficávamos largados ao sol, refestelando-nos como lagartos preguiçosos, recompondo nossas energias enquanto absorvíamos todo aquele calor. A analogia com as plantas era – mais do que pertinente – óbvia.

Como passatempo – embora não nos agradasse que esse tempo passasse muito depressa – conversávamos sobre as mais diversas futilidades: algum assunto lido no jornal do dia anterior, na revista semanal, ou visto nos telejornais das primeiras horas da manhã. Apresentavam-se as mais variadas notícias, todas, naquela hora, de igual importância, fossem elas mexericos de política, religião, futebol, ou algum outro tema de relevante interesse para a segurança nacional. Enfim, o que melhor aprouvesse ao humor dos companheiros de conversa.

Qualquer que fosse o tema escolhido, as discussões eram acaloradas, alternando-se as opiniões nos debates. Fervilhava-nos a paixão pelos discursos, como senadores a decidir o futuro da nação, ou como futuros juristas a fazer uma explanação oral. Não havia problema insolúvel; dali, saíam respostas para todas as mazelas que afligem o mundo! Sentíamo-nos como grandes filósofos do pensamento ocidental, oráculos de sabedoria dos meios acadêmicos.

Porém, o assunto principal desse plenário não poderia ser outro: os dotes físicos das respeitáveis senhoritas que por ali passavam. Não, caros senhores, não se tratava de perversão dos ilustres jovens. À primeira vista, pode parecer que agíamos de forma deveras machista, como meros fornicadores, ávidos por um belo par de pernas femininas.

Todavia, naquela hora não alimentávamos a lascívia. Nossa prática limitava-se tão somente a uma espécie de idolatria pagã, cujas deusas não ficavam confinadas a um Monte Olimpo ou a um Valhala. Que imensa vantagem tínhamos sobre os guerreiros da Antigüidade! Para eles, aproveitar as benesses dessas beldades era um privilégio restrito, concedido somente após uma morte gloriosa, ocorrida no campo de batalha. Para nós, reles e pacatos mortais, elas estavam todas ali, presentes de corpo e alma, quiçá tangíveis, para deleite de nossos sôfregos olhos.

Nutríamos nada mais do que uma adoração platônica pelas formas angelicais que, diante de nós, desfilavam, garbosas, como se a sua existência se limitasse a atormentar as almas masculinas, abobalhadas com toda aquela voluptuosidade. Torturavam-nos, em movimentos que pareciam não ter fim, e deixavam-nos maravilhados diante de toda aquela generosidade concedida pela Mãe Natureza, ou, quem sabe, por repetidas dietas alimentares, combinadas com horas diárias de exercícios físicos. Não nos importava a causa de tal fenômeno estético, mas apenas suas agradáveis conseqüências, acentuadas pelas roupas sobremaneira exíguas, compatíveis com o dia quente que fizera.

De vez em quando, algum dos colegas se exaltava, e murmurava algum gracejo nada requintado, daqueles que, em sendo ouvido pela destinatária, seria prontamente correspondido com palavras de baixo calão, incompatíveis com moças de tão fino trato. Felizmente, nunca houve tal acontecimento para ensejar tamanha conseqüência, o que certamente teria comprometido a magia do momento.

Regozijados com aqueles poucos minutos de visões magníficas, trilhávamos, enfim, o caminho de regresso à sala de aula, para dar seguimento ao aprendizado acadêmico. Voltávamos embriagados com toda aquela delicadeza e formosura, e com a certeza de que, no dia seguinte, se ensolarado, poderíamos fazer tudo outra vez.

(Crônica publicada originalmente em livro em homenagem aos 70 anos da Faculdade de Direito da UFSC. Meio exagerada em alguns momentos – para não dizer piegas e cheia de clichês, em outros – mas para a época valeu.)