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quinta-feira, 26 de junho de 2008

CHUVA, E AGORA?

É, amigos, depois de algumas semanas em que Floripa viveu um verão perfeito, sob sol escaldante, calor e praia o dia inteiro, voltamos à normalidade, ou seja, choveu! Isso mesmo, chuva! Um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de água sobre a superfície da Terra. Vez por outra, precipitam-se também elementos químicos, lama e detritos, mas isso já seria outra história.

Todo esse tempo de sol já me causava estranheza. Afinal, a chuva faz parte do verão catarinense. Além disso, quem precisa de praia o dia inteiro, não é mesmo? Coisa chata ficar o dia inteiro sem fazer absolutamente nada além de se espreguiçar sob o sol e, de vez em quando, refrescar-se em um banho de mar. Pior: correr o risco de afogar-se no mar, de contrair uma insolação ou um câncer de pele. Bom mesmo é ficar trabalhando num ambiente com ar-condicionado, contribuindo para o crescimento da economia nacional.

Creio ser provável que vocês já estejam convencidos de que essa mania de dias de sol e praia não está com nada. Ou então já me rogaram algumas pragas e direcionaram alguns impropérios à minha pessoa. Mas não podemos negar é que a grande questão a ser levantada nesses tempos é: o que podemos fazer num dia de chuva em Floripa?

Eu poderia elaborar uma daquelas listas do tipo “10 coisas que podem ser feitas em Floripa durante um dia de chuva”, mas tenho duas razões para não o fazer. A primeira delas é que não sei se existem 10 coisas que podem ser feitas nessas situações. A outra razão é que outro colunista um pouco menos medíocre pode me processar por plágio, uma vez que ele se tornou notório por essas listagens.

Quando chove, a primeira coisa que pensamos em fazer é... ficar em casa, óbvio! Afinal, o que fazer na rua com um tempo desses? Enfrentar um trânsito infernal, ruas alagadas, vento, debaixo de gotas d’água caindo do céu, não é uma missão das mais agradáveis. Bem melhor ficarmos no conforto de nossos lares, pedirmos uma pizza e vermos filmes, não é mesmo?

Se você respondeu “não” à pergunta acima, provavelmente faz parte da grande maioria das pessoas que não são ranzinzas como eu (embora eu prefira dizer que isso não é ser rabugento, mas tão-somente racional). Por isso, sempre existem aqueles que, mesmo com chuva, pretendem fazer algum programa fora do conforto de seus lares ou hospedagens, ainda que para isso tenham de enfrentar esses aguaceiros todos.

A primeira coisa que as pessoas em Floripa costumam fazer quando chove é ir ao shopping. Sim, shopping center, um centro comercial em cuja estrutura existem estabelecimentos comerciais como lojas, lanchonetes, restaurantes, salas de cinema, parques de diversões, bem como estacionamento. É a maior vitrine das maravilhas do capitalismo cosmopolita, e nossa cidade, tão aberta à cultura de outras localidades (apesar do movimento “Fora Haole” que, como todos sabem, é intriga da oposição), não poderia deixar de ter um ou dois deles.

De fato, esse costume de ir ao shopping em dias de chuva já foi amplamente absorvido pelos turistas que visitam a cidade, os quais, nos primeiros sinais de dias nublados, dirigem-se a esses centros de compras para aproveitar as ofertas (???) neles oferecidas. Além disso, o shopping não se resume a um templo onde as pessoas exercem o seu direito de praticar o consumismo desenfreado. Muitos se dirigem aos seus cinemas, seja para ver um filme, seja para pegar uma fila quilométrica só por diversão. Já alguns simplesmente ficam passeando sem rumo, utilizando os corredores do centro comercial como pista de caminhadas.

Outro programa possível de ser feito é ir a um dos museus. Sim, para aqueles que não sabem, em Floripa existem alguns museus. Certas pessoas entendem que esses locais não passam de casinhas velhas, cheias de objetos mais velhos ainda. Outros já entendem que estes ajudam a contar parte da história da cidade e de Santa Catarina. Esses ambientes desconhecidos da maioria talvez sejam os melhores programas para quem tem alguns neurônios de sobra para gastar com a história da cidade.

No entanto, se a pessoa prefere gastar seus neurônios com doses de álcool e gordura, há a opção de exercitar o pecado da gula, dirigindo-se a um dos muitos restaurantes, bares e biroscas da cidade. Essa talvez seja a opção mais democrática: existem desde sofisticados (e caros) restaurantes de cozinha internacional até o mais tradicional boteco. Assim, o candidato a gourmet pode degustar desde ostras gratinadas com chopp de primeira qualidade até moelas fritas de frango com alguma cerveja barata. No entanto, esse programa tem um grave ponto negativo: o seu excesso pode transformar o usuário em candidato a astro de uma continuação do filme “Supersize Me”, além de cliente assíduo de clínicas de spa, médicos cardiologistas e produtos dietéticos.

Enfim, pudemos perceber como são variadas as opções de lazer em nossa cidade quando a natureza não nos permite ir à praia. Porém, já que temos mais sorte que juízo, São Pedro (ou, dependendo da sua crença religiosa, Tupã, Javé, Jeová, etc) deve trazer o sol de volta logo, logo. Até lá, tenham paciência!

(originalmente publicada no portal - hoje extinto - Floripa Hoje)

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

CENTRO DE INTEGRAÇÃO EMPRESA-ESCRAVOS

Ingressar numa universidade de ponta, num curso tradicional, parece ser o sonho de toda pessoa (e principalmente dos pais dela), que assim vincula o estudo nesses centros de excelência à garantia de emprego certo após a formatura. Ao menos foi isso que pensei há alguns anos, quando, por sorte, consegui ser aprovado no vestibular.

Lêdo engano! O mercado de trabalho está saturado de jovens recém-graduados que, não obstante a formação altamente qualificada, engrossam as filas de desempregados, ou, ainda, buscam trabalhos abaixo das suas qualificações, com o intuito de garantir a sua sobrevivência. Esse é o grande dilema do jovem trabalhador brasileiro: durante a faculdade ou ensino médio, é comum arranjar um estágio, "para aprender na prática o conteúdo", ou para ter dinheiro mesmo. Todavia, ao formar-se, engrossa a fila de desempregados qualificados, uma vez que não tem "experiência comprovada", requisito essencial para o mercado de trabalho, e as ocupações para inexperientes foram tomadas pelos estagiários, de qualificação semelhante, porém desprovidos do estorvo da proteção dos direitos trabgalhistas. E isso para não mencionar a grande maioria de pobres coitados que sequer chega ao nível de estagiário, tendo de abandonar os estudos ainda no primeiro grau, obtendo sua sobrevivência em sub-empregos.

A culpa disso tudo? Um sistema trabalhista perverso que, em detrimento do bem-estar social dos que vendem seu serviço, busca apenas arrecadar recursos para um Estado degenerado, por meio de vultosos encargos sociais que desestimulam a contratação empregatícia. Como se não fosse o bastante, combina-se a tanto um emaranhado de sindicatos enfraquecidos, atrelados ao Estado, que, em vez de lutar pelo bem da classe que representam, tornam-se estruturas burocráticas, apáticas, cujo objetivo velado passa a ser o de formar uma elite sedenta de poder (e cargos), mesmo que para isso tenha de apoiar incondicionalmente velhas oligarquias.

Por isso que, em anos recentes, as empresas descobriram esse filão tão promissor na gestão de recursos humanos. Quem não gostaria de obter trabalhadores eficientes, pagando um salário baixo (chamado de bolsa-auxílio), e sem conseqüências indesejáveis, como direitos trabalhistas básicos (férias, por exemplo), encargos previdenciários, podendo ser demitidos sem qualquer cerimônia (e pagamento de rescisão), mediante uma simples revogação de contrato? A redução de custos com recursos humanos é fantástica! Pelo preço de um empregado formal, é possível contratar até vinte (!!) estagiários, que obedecem sem reclamar, pois o mercado é concorrido, e existem milhares de outros universitários à espera de uma vaga para ocupar.

Para ajudar as empresas na obtenção desses pequenos servos, surgiram os Centros de Integração, organizações não-governamentais que constituem bancos de dados com cadastros de estudantes, e bancos de vagas oferecidas pelas empresas contratadas. Para cada estagiário aliciado, a empresa contratante paga uma módica quantia mensal à organização, a título de remuneração pelo serviço prestado; livre de tributos, pois o Estado não pode exigir dinheiro de uma instituição de "interesse público", por mais lucrativa que seja. Incrível: no passado, que traficante de escravos teria a idéia de cobrar dos senhores de engenhos uma taxa periódica, em razão do negro que lhe fôra vendido? Se vissem como se lucra atualmente com a escravidão, teriam mandado a Princesa Isabel às favas, bombardeariam os navios ingleses que patrulhavam os oceanos, e retornariam à sua atividade lucrativa, recheada de novos conceitos.

Talvez, num futuro (nem tão) distante, a figura do estagiário seja lembrada como, hoje em dia, lembramo-nos dos servos na Europa Ocidental durante a Idade Média ou na Rússia do século XIX. Afinal, as relações de exploração não costumam ser lembradas como tal no tempo em que ocorrem, mas tão-somente através da reflexão das gerações posteriores. (originalmente publicado em 02/12/2003)

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

A NATUREZA É JUSTA

Dia desses uma amiga minha surpreendeu-me ao informar o nome de um dos seus "pontinhos" recentes que, por sinal, também era meu conhecido. Fiquei abismado pelo fato de uma guria "mui rica" (tá bom, nem tanto assim, senão tem gente que depois vai vir se achando) como ela ter se entregado a um, digamos, elemento análogo a um personagem dos desenhos da Warner Brothers. Ciente da minha perplexidade, a menina deixou a entender a seguinte justificativa: o "tal" beijava muito bem.

Após essa formidável explicação, elaborei a teoria que encabeça este texto: nós, seres humanos, somos convencidos da nossa "vitória" contra a seleção natural, uma vez que até o pior dos retardados consegue transmitir seus genes a gerações futuras (vide George Bush e seu rebento); todavia, ainda estamos sob o jugo da Mãe Natureza. Esta, sábia (ou quase, pois produziu uma bizarrice como o ornitorrinco e nós, da espécie humana, que a destruímos), não permite o surgimento de seres humanos "perfeitos", por mais que nos dediquemos a técnicas de eugenia. "Nature finds its way", como Jeff Goldblum disse em Jurassic Park.

Por acaso alguém já teve a oportunidade de conquistar aquela menina tão desejada, sonho de consumo da turma inteira, e, na hora H, simplesmente não conseguir fazer nada decente porque ela é uma verdadeira analfabeta no assunto? Ou, ainda, quando esteve mais na seca que o Deserto do Atacama, e resolveu apelar pra aquela gordinha que nem abutre com fome encara, e percebeu que, de olhos fechados (pra não tomar susto), ela era muito melhor que a loira gostosa? Pois é, caro amigo, nesse dia, você conheceu a sabedoria da Natureza. Esta, afeita à variabilidade, não concede todos os dons a um mesmo indivíduo, pois, em caso contrário, criaria duas castas; uma, de seres "perfeitos", e, por conseguinte, chatos, e outra, composta pelo lixo genético restante. E por que essa situação deve ser evitada? Simples, oras! Se as circuntâncias mudarem, de forma a se tornarem desfavoráveis aos "perfeitos". Adeus, espécie infeliz.

Por mais malas que nós, seres humanos, sejamos, a Natureza ainda não nos descartou de seu plano. Dessa forma, ela ainda quer garantir a nossa variabilidade genética. E é justamente por isso que é extremamente raro encontrarmos uma loira escultural que seja uma máquina do amor, pois ela seria justamente o alvo preferido de todos os homens, deixando milhares de feinhas e seus respectivos genes a ver navios. Portanto, cada ser humano tem algumas qualidades que lhe são únicas e incomparáveis, e, para compensar, alguns defeitos que muitos não suportariam, mas que, todavia, alguns os aceitam tendo em vista as qualidades supratcitadas. Assim se procede o fabuloso jogo da sedução e, como conseqüência, reprodução.

Isso me deixa feliz por dois motivos. O primeiro, é que por mais que os geneticistas insistam em pesquisar técnicas fascistas de eugenia, para criar "super homens e mulheres", isso não ocorre, pois a natureza de alguma forma impede que todos os "bons" genes sejam destinados a apenas uma pessoa. O segundo é que eu, um ser relegado a segundo plano na distribuição eugênica, tenho condições de manter minhas esperanças em perpetuar minha características (para desespero da Humanidade). (originalmente publicado em 18/09/2003)